Quando estive em casa, após o nascimento do meu filho, aproveitava as alturas em que o alimentava para ver o Dr. House. Vi as séries praticamente todas. Num dos episódios, aconteceu o seguinte com a Dra. Lisa Cuddy:
O despertador tocou ainda de madrugada. Ela desligou-o, levantou-se cheia de energia, e foi fazer um pouco de ginástica matinal (corajosa). Depois tomou um duche, vestiu-se, tomou o pequeno almoço, tudo em contra-relógio. No meio de tudo isto, a filha (pequenina) chorava por ter acordado doente, com febre. Uma confusão. Entretanto, chegou a empregada doméstica que ficou com a menina. Ainda antes de sair de casa, apareceu-lhe o namorado, para uma visita rápida, e ela teve tempo e disposição para isso. Saiu de casa e foi trabalhar. Tudo cenas muito corridas, muito intensas. No trabalho era um dia decisivo. Ía ter uma reunião de negócios importantíssima de que dependia o futuro do hospital que dirige. Foi um episódio tão stressante, tão rápido, corre para aqui, corre para ali, chatices, a filha doente, a secretária sempre a correr atrás dela com recados, etc, que eu estive sempre à espera do momento em que lhe ía dar um colapso. Mas nunca aconteceu. Ela aguentou-se rija o episódio todo, conseguiu sair vitoriosa da reunião de negócios, foi para casa ainda relativamente cedo e passou o resto do dia com a filha e o namorado, super bem-humorada e tranquila, a trocar carinhos.
Ao terminar o episódio, ficamos com a sensação de que aquela mulher é sensacional, uma verdadeira heroína. Mas, se virmos bem, ela fez tudo aquilo porque tinha uma pessoa em casa a limpar, a tratar das roupas, a cozinhar e que ainda cuidava da sua filha. Ela tinha também uma secretária pessoal que lhe organizava a agenda e fazia as tarefas mais aprisionadoras e burocráticas. E, acima de tudo, ela era superelegante, gira, inteligente, com tempo para tudo e mais alguma coisa, porque era a protagonista de uma série de ficção de sucesso. Mas, note-se, apesar de tudo, ela tinha apenas um namorado, não um marido. E o namorado não era o pai da sua pequena filha. Na verdade, nem era o namorado que ela gostava de ter. Poucos episódios depois, esse namoro terminou e logo começou outro, muito tumultuoso, com o House, mas que também vai terminar depois. Mas até isso não deve ser por acaso. É a imagem de uma mulher livre, desprendida, que não se submete à rotina, nem a um homem só. Mas, no fundo, é uma mulher infeliz no amor. E a sua criança vai crescendo sem uma presença paterna. É esta imagem da mulher-heroína que não gosto, não concordo e acho um exagero. Concordo que as mulheres ainda estão a percorrer o caminho da igualdade de género em diversas áreas. Mas é preciso ter atenção aos exageros. Falo por mim - se faço muitas coisas na vida é porque formei equipa com um marido excecional e um pai dedicado. Não existem super-mulheres. Não existem super-homens. Existem boas equipas.